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“A Transfiguração do Homem” disponível nesta plataforma

Neste Natal, trazemos para os nossos leitores, de forma gratuita, a tradução portuguesa de A Transfiguração do Homem, último livro de Frithjof Schuon, do qual já tínhamos publicado aqui alguns capítulos. O livro se encontra esgotado e não se tem intenção de publicá-lo novamente em papel.

O pdf pode ser descarregado clicando-se aqui.

… Rahimahu Allâh

O Cheikh Al-Alawi

Acontece às vezes, em nossa época, em que a dúvida e o espírito utilitarista se estendem numa camada uniforme cada vez mais invasora, que tenhamos contatos com mundos cuja vida ainda transcorre, semelhante aos pesados rios da Ásia, segundo ritmos seculares — quer tenhamos nos mesclado com sociedades humanas que continuam a obedecer a ideias no sentido verdadeiro do termo, ou seja, a perspectivas originais do espírito, quer o destino nos ponha na presença de um daqueles que representam por si mesmos, e não somente por sua filiação a uma certa civilização, a ideia a partir da qual esta vive há séculos. A ideia que é o segredo, a determinação interna de toda forma tradicional, é por demais sutil e por demais profunda para ser realizada com uma mesma intensidade por todos aqueles que respiram sua atmosfera; portanto, é uma felicidade tanto mais preciosa aproximar-se de um mensageiro espiritualmente representativo de um desses mundos que o Ocidente moderno não consegue compreender. Pode-se comparar o encontro com um desses mensageiros ao que seria, por exemplo, em pleno século XX, o encontro com um santo da Idade Média ou com um patriarca semítico; e foi também essa a impressão que nos deu aquele que foi, em nossa época, um dos maiores Mestres do Sufismo: o Cheikh Al-Hadj Ahmed Abul Abbas ben Mustafa ben Aliwa, conhecido também sob o nome de Cheikh Al-Alawi, que faleceu há alguns meses em Mostaghanem.

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“Ele está em toda parte … em todos os mundos…”

O Buddha, estátua do séc. XI escavada na rocha em Gal Vihara. Polonnaruwa, Ceilão.

(…) Estas considerações nos aproximam da ideia búdica — e vedantina — da não-realidade do mundo [1]; para torná-la mais familiar, apelaremos a uma certa capacidade de imaginação e faremos a questão em sentido inverso: o que significa, então, a crença comum de que o mundo é real — absolutamente real? Como podemos chamar de “reais”, sem usar a menor nuance atenuante, fenômenos que se reduzem a quase nada, não em sua ambiência imediata, sem dúvida, mas desde que consideramos o espaço e o tempo em toda a sua extensão?

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“É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha…”

O Sermão da Montanha — Cenas da vida de Cristo. Mosaico da Basílica de Sant’Apollinare Nuovo, em Ravenna, Itália.

No nível da dialética sagrada, o Evangelho nos oferece exemplos de simbolismo hiperbólico: quando o Cristo afirma que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus, ou que basta ter um grão de mostarda de fé para poder mover uma montanha, ele se exprime de maneira tipicamente semita: o que se deve compreender é, de uma parte,  que é impossível à alma entrar diretamente na Glória enquanto ela permanecer apegada a coisas perecíveis — pois é o apego, e não a mera posse, que cria o vício da riqueza — e, de outra parte, que a fé comporta por ela mesma um poder sobrenatural, logo humanamente incomensurável, na medida em que é sincera. O exagero formal tem aqui por função sugerir, por um lado — quanto à riqueza — uma condição sine qua non da salvação e, de outro lado — quanto à fé — uma qualidade participativa e eficiente de absolutez. Observações análogas poderiam ser aplicadas às injunções — conformes a uma dialética isolante na qual uma relação particular está implícita — de oferecer a outra face ou de não julgar, e outras expressões do gênero.

Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, Éditions Traditionnelles, Paris, 1982, p. 131. Tradução de MSA.

A qualidade divina de um Livro Revelado se mostra por seu resultado nas almas e no mundo

Ler as Escrituras sagradas da humanidade com uma admiração pura é uma coisa, e reconhecer que nem sempre se é capaz de apreciá-las é outra; podemos, de fato, saber que um texto, sendo sagrado, deve ser perfeito sob o duplo aspecto do conteúdo e da forma, mas podemos não estar em condições de constatar isso, conforme as passagens com as quais se choca nossa ignorância, e que só o comentário tradicional nos tornaria inteligíveis. Aceitar com veneração “toda palavra que sai da boca de Deus” não exige, portanto, evidentemente, nenhuma hipocrisia piedosa; ou seja, nossa aquiescência, não somente de princípio, mas também de fato, só é inteligente e sincera com a condição de se basear em motivos reais, sem o que deveríamos aceitar toda dissonância devida a um erro de tradução, enquanto ignorássemos sua falsidade (…)

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Em nossos dias, é a máquina que tende a tornar-se a medida do homem

Deus é a medida do homem espiritual. [São Silvano do Monte Athos (1886-1938)]

Dizer que o homem é a medida de todas as coisas só tem sentido se se parte da ideia de que Deus é a medida do homem, ou de que o Absoluto é a medida do relativo, ou, ainda, de que o Intelecto universal é a medida da existência individual; só é plenamente humano o que é determinado pelo divino e, por consequência, centrado nele. A partir do momento em que o homem se faz medida sem querer ser, por sua vez, medido, ou que ele define sem querer ser definido por aquilo que o supera e lhe dá todo o seu sentido, os pontos de referência humanos se dissipam; cortai o divino e o humano desaba.

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Cabe a nós transformar o mundo em ouro — mas em nosso interior

Shrî Ramakrishna Paramahansa (1836-1886)

O mundo é o que ele é; cabe a nós transformá-lo interiormente em ouro. O mundo como tal não nos diz respeito, só seu reflexo em nós mesmos tem importância. Os santos são os seres que compreenderam isso; eles não esperaram nada do mundo, e não tinham amargura. Eles tiraram tudo de si mesmos, por Deus e para Deus.

Um hesicasta disse que, no momento em que o homem pronuncia o Nome de Deus com uma concentração perfeita — ou um perfeito abandono —, nada o distingue de um santo. O santo é o homem que pôde “fixar” essa atitude. Deus não pede isso a nós, mas cada um deve dar o que pode.

* * *

Frithjof Schuon, carta não datada, publicada em Vers L’Essentiel — Lettres d’un Maître spirituel, Editions Les Sept Flèches, Lausanne, 2013, p. 89.

O homem deificado é o “motor imóvel”

No Céu, pode-se distinguir entre o Anjo supremo — ou o conjunto dos Arcanjos — e os outros anjos, aos quais se juntam os bem-aventurados; abaixo do Céu, na “roda dos nascimentos e das mortes”, o motor imóvel — como diria Aristóteles — não é senão o homem, o qual, sendo “feito à imagem de Deus”, abre-se para o Absoluto e para a Libertação. O homem representa ipso facto o Imutável e o Ilimitado, à maneira que o extremo limite da Manifestação universal torna possível; ele os representa potencialmente, indiretamente e passivamente no caso dos homens comuns, mas efetivamente, diretamente e ativamente em todo homem deificado; este é então central, não somente — como todo homem — em relação ao mundo animal, mas também — de uma maneira particular e por acréscimo — em relação à multidão dos homens comuns. Os “crentes” são como as gopis dançando em volta de Krishna e unindo-se a ele; enquanto ele toca — ele, o “motor imóvel” — a flauta salvadora.

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O mundo de hoje é a imagem da irresponsabilidade do homem moderno

“Os homens construíram ao seu redor um mundo feito de fenômenos artificiais, em cujo quadro deformante todos os seus erros e delitos têm a aparência de evidências ou de glórias; este mundo factício é de tal forma feito que o mal nele aparece como um bem, e o bem como um mal. Eles chamam de ‘realidade’ a este mundo de cenários e espelhos deformantes, e atribuem a este ídolo, ou a este bode expiatório, todas as responsabilidades, se sentem necessidade disso; e, se esta ‘realidade’ entra em colapso, apressam-se em declarar que Deus fez mal o mundo, e o mundo é o que Deus é, ou seria, ‘se Ele existisse’, e assim por diante. Quando se fala de fé e de obediência — e estas duas atitudes se esclarecem perfeitamente, para além de toda sentimentalidade, à luz da relação Substância-acidente —, os homens protestam que eles não são crianças irresponsáveis e sabem reconhecer o que é verdadeiro e o que não é; mas, quando se fala de sanções divinas, eles se apressam a dizer que não poderiam merecer nenhuma punição, porque foi Deus quem os fez o que eles são. Ora, é preciso escolher nossos argumentos: ou somos irresponsáveis e portanto fundamentalmente inocentes, mas então tiremos as consequências e sejamos crianças; ou somos soberanamente responsáveis e livres, mas então não pretendamos escapar de jure de todo ‘choque de retorno’ cuja causa deriva, precisamente, de nossa responsabilidade.”

Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, Éditions Traditionnelles, Paris, 1982, pp. 93-94, tradução de MSA.

[Fotos: Indio Hupa com arpão para pesca, por Edward Curtis; Traffic Jam at Rama 4 Road, por Sry85 colhida na Wikimedia Commons neste link.]