Arquivo do autor:Alberto Queiroz

Uma ambiência que evoque nossa origem celeste

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A vocação sine qua non do homem é a de ser espiritual. A espiritualidade se exerce nos planos que constituem o homem, a saber, a inteligência, a vontade, a afetividade, a produção: a inteligência humana é capaz de transcendência, de absoluto, de objetividade; a vontade humana é capaz de liberdade, portanto de conformação ao que a inteligência apreende; a afetividade humana, que se une a cada uma das faculdades precedentes, é capaz de compaixão e de generosidade, pelo fato da objetividade do espírito humano, a qual faz a alma sair do egoísmo animal. Continuar lendo

“Nossa identidade profunda é nossa relação com Deus…”

Swami Ramdas

Nossa identidade profunda é nossa relação com Deus; nossa máscara é a forma que devemos assumir no mundo das formas, do espaço, do tempo. Nossa ambiência, assim como nossa personalidade, é forçosamente do domínio do particular, não do Universal; do ser possível, não do Ser necessário; do bem relativo, não do Sumo Bem. Portanto, não há que se perturbar por viver em certa ambiência e não em outra; e também não há que se perturbar por ser certo indivíduo e não outro. Sendo uma pessoa — sob pena de inexistência —, só se pode ser uma pessoa particular, ou seja, “tal ou qual pessoa” e não “a pessoa como tal”; esta só se situa no mundo das Ideias divinas, e “tal pessoa” é-lhe um reflexo na contingência.

O que é fundamental é manter, a partir do ser possível, o contato com o Ser necessário; com o Sumo Bem, que é a essência de nossos valores relativos, e cuja natureza misericordiosa inclui o desejo de nos salvar de nós mesmos; de nos libertar fazendo-nos participar de seu mistério ao mesmo tempo imutável e pleno de vida.

Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, L’Age d’Homme, Lausanne, 1992, pp 54-55.

(Foto: Swami Ramdas, 1884-1963)

Majestade aquilina e solar

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A fascinante combinação de heroicidade combativa e estoica e de estilo sacerdotal conferia ao Índio das Planícies e da Florestas** uma espécie de majestade ao mesmo tempo aquilina e solar, de onde essa beleza fortemente original e insubstituível que se liga ao pele-vermelha e contribui para seu prestígio de guerreiro e de mártir. Como os japoneses dos tempos dos samurais, o pele-vermelha era profundamente artista em sua própria manifestação pessoal: além do fato de que sua vida era um jogo perpétuo com o sofrimento e com a morte e, por esse fato, um tipo de karma-yoga cavaleiresco, ele sabia dar a esse estilo espiritual um revestimento estético de uma expressividade insuperável.

Um elemento que pode ter dado a impressão de que o índio é um individualista — por princípio e não somente de facto — é a importância crucial que assume para ele o valor moral do homem, o caráter, se se quer, de onde o culto do ato. O ato heroico e silencioso se opõe à palavra vã e prolixa do pusilânime; o amor ao segredo, a reticência em entregar o sagrado em discursos fáceis que o enfraquecem e o dilapidam, se explicam por isso. Todo o caráter do índio se deixa definir, em suma, por estas duas palavras, se tais elipses se permitem: ato e segredo; ato fulgurante, se necessário, e segredo impassível. Como uma rocha, o índio de antigamente repousava em si mesmo, em sua personalidade, para então traduzi-la em ato com a impetuosidade do raio; mas, ao mesmo tempo, ele permanecia humilde diante do Grande Mistério cuja natureza circundante era, para a ele, a mensagem permanente.


*Sitting Bull foi um chefe, guerreiro e medicine-man dos Hunkpapa Sioux. A foto acima foi feita por volta de 1883. (N. do E.)

** Da América do Norte. (N. do E.)

Extraído de “Chamanisme Peau-rouge”, em Regards sur les Mondes Anciens, de Frithjof Schuon, Éditions Traditionnelles, Paris, 1980. [Este livro foi publicado no Brasil com o título O Homem no Universo.]

 

“Respiramos a Presença de Deus…”

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A Presença divina tem, na ordem sensível, dois símbolos ou veículos — ou duas “manifestações naturais” — de primeira importância: o coração em nós, que é nosso centro, e o ar à nossa volta, que nós respiramos. O ar é a manifestação do éter, que tece as formas, e ele é ao mesmo tempo o veículo da luz, a qual, também ela, manifesta o elemento etéreo (1). Quando respiramos, o ar penetra em nós, e — simbolicamente falando — é como se ele introduzisse em nós o éter criador junto com a luz; nós respiramos a Presença universal de Deus. Há também uma relação entre a luz e o frescor, pois as duas sensações são libertadoras; o que no exterior é luz, é, no interior, frescor. Nós respiramos o ar luminoso e fresco, e nossa respiração é uma oração, assim como o batimento de nosso coração; a luminosidade se refere ao Intelecto, e o frescor, ao Ser puro (2). Continuar lendo

Os dois momentos

Santa Bernadette de Lourdes

“Há dois momentos na vida que são tudo, e eles são o momento presente, em que estamos livres para escolher o que queremos ser, e o momento da morte, em que não temos mais nenhuma escolha e em que a decisão cabe a Deus. Ora, se o momento presente é bom, a morte será boa; se estamos agora com Deus — neste presente que se renova sem cessar, mas que continua sendo sempre este momento atual único —, Deus estará conosco no momento de nossa morte. A lembrança de Deus é uma morte na vida; ela será uma vida na morte.”

(Foto: corpo de Santa Bernadette de Lourdes)

Um carta de Frithjof Schuon sobre a poesia

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Apresentamos hoje um extrato de uma longa carta de Frithjof Schuon sobre a poesia escrita em 12 de janeiro de 1971. O mestre, como sempre, vai à essência do tema.

*

A poesia é a “linguagem dos deuses”; e “noblesse oblige“; quero dizer com isso que o poeta tem certas responsabilidades. Na poesia, a musicalidade das coisas, ou sua essencialidade cósmica, irrompe no plano da linguagem; e esse processo exige a grandeza, portanto também a autenticidade, da imagem e do sentimento. O poeta tem espontaneamente a intuição da musicalidade subjacente dos fenômenos; sob a pressão de uma imagem ou de uma emoção — esta combinando-se, aliás, naturalmente, com imagens concordantes —, o poeta exprime uma beleza arquetípica; sem essa pressão, não há poesia, o que implica que a verdadeira poesia tem sempre um aspecto de necessidade interior, de onde seu perfume insubstituível. São necessárias, portanto, a grandeza subjetiva e objetiva do ponto de partida ou do conteúdo e, então, a musicalidade profunda da alma e da linguagem; ora, a da linguagem deve ser tirada dos recursos desta, o que constitui a arte formal da poesia. Dante não tinha somente grandeza, ele também sabia, por um lado, infundir essa grandeza na linguagem e, por outro lado, manejar a linguagem de forma a torná-la adequada a sua visão interior. Quando Shakespeare descreve, num tom de canto popular, uma situação qualquer, ele consegue as mais das vezes apresentar-lhe a quintessência e remeter assim as aparências a sua musicalidade cósmica, de onde um sentimento de liberação característico de toda verdadeira poesia.

(…)

Em geral, sou hostil à poesia, porque quase ninguém a sabe fazer — fazendo-se abstração, aqui, dos motivos espirituais — e também porque a maior parte dos verdadeiros poetas se deixa enganar por seu talento e se perde na prolixidade, em vez de deixar a musa atuar, musa que por vezes é muito parcimoniosa. Ora, deixar a musa atuar não é dizer pouco! Isso implica que haja uma pressão interior que não tolera nenhuma hesitação nem nenhuma tagarelice, e essa pressão deve ser função de alguma ordem de grandeza; de onde a “cristalinidade musical” da poesia, a força convincente de sua necessidade interior. Não há beleza sem grandeza; essas duas qualidades devem estar tanto na alma do poeta quanto na forma que ele sabe dar à linguagem. Gema de perfeição e vibração de infinitude!

*

[Frithjof Schuon, Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître spirituel, Edition Les Sept Flèches, Lausanne, Suíça, 2013, pp. 109 e 110.]

Um novo website em espanhol sobre a Filosofia Perene

Sophia Perennis

Iniciou-se em espanhol um excelente website sobre a Filosofia Perene, intitulado Sophia Perennis. Com ensaios de Schuon, Titus Burckhardt e outros autores perenialistas, é uma ótima uma opção para os leitores brasileiros e portugueses que se interessam pelo Verdadeiro, pelo Bom e pelo Belo.

O endereço é este: https://sites.google.com/site/sofiaperenne/

Desejamos a todos boas leituras, boas reflexões.

Martin Lings fala sobre René Guénon

René Guénon e Frithjof Schuon

René Guénon e Frithjof Schuon

Republicamos aqui um texto publicado no website Sabedoria Perene. Trata-se de um “Tributo a René Guénon” feito por Martin Lings. Ele começa assim:

No que diz respeito ao início da vida de René Guénon o nosso conhecimento é muito limitado devido à sua extrema reticência. A sua objectividade, a qual é um aspecto da sua grandeza, fê-lo compreender os males do subjectivismo e individualismo no mundo moderno, o que o impeliu, talvez em demasia, na direcção oposta; evitando de todas as formas falar sobre si próprio. Desde a sua morte, têm sido escritos livros atrás de livros e os seus autores têm, sem dúvida, sentido uma enorme frustração por serem incapazes de descobrir diversas coisas e, em resultado, livros atrás de livros contêm erros factuais.

Continue a ler clicando aqui.

René Guénon: Definições

Há neste website, também, um belo ensaio de Frithjof Schuon sobre a obra de Guénon.

Ele começa assim:

A definição da obra de René Guénon se apoia em quatro termos: intelectualidade, universalidade, tradição e teoria. A obra é “intelectual”, pois diz respeito ao conhecimento — no sentido profundo e integral desse termo — e o considera em conformidade com sua natureza, ou seja, à luz do Intelecto (…)

Pode-se lê-lo clicando aqui.

(Foto: René Guénon e Frithjof Schuon no Cairo.)

A única coisa que conta absolutamente…

Sri Ma Anandamayi

Os dois grandes obstáculos da vida terrestre são a exterioridade e a matéria; ou, mais precisamente, a exterioridade desproporcional e a matéria corruptível. A exterioridade é a falta de equilíbrio entre nossa tendência para as coisas exteriores e nossa tendência para o interior, o “reino de Deus”; e a matéria é a substância inferior — inferior com relação a nossa natureza espiritual — na qual estamos aprisionados na terra.

O que se impõe é, não rejeitar o exterior só admitindo o interior, mas realizar um equilíbrio com o interior — uma interioridade espiritual, precisamente — que tire da exterioridade sua tirania ao mesmo tempo dispersante e compressiva e que, ao contrário, nos permita “ver Deus em toda parte”; ou seja, perceber nas coisas os símbolos e os arquétipos, em suma, integrar o exterior no interior e fazer dele um suporte para  interioridade. A beleza, percebida por uma alma espiritualmente interiorizada, é interiorizante; não confundir uma interioridade orgulhosa ou narcisista com a interioridade santa.

E no que diz respeito à matéria: o que se impõe é, não negá-la — se isso fosse possível —, mas subtrair-se a sua tirania sedutora; distinguir nela o que é arquetípico e puro do que é acidental e impuro; tratá-la com nobreza e sobriedade. “Tudo é puro para aquele que é puro.”

* * *

A razão de ser do homem é a consciência que o Si divino tem de Si mesmo, e que deve se reverberar na contingência em virtude da Infinitude do Princípio divino.

Nossa relação com o mundo é algo de condicional, de relativo; nossa relação com o Céu, ao contrário, é algo de incondicional e de imprescritível. A única coisa que conta absolutamente é nossa consciência do Absoluto; todo o resto está nas mãos de Deus.

(Frithjof Schuon, A Transfiguração do Homem, Editora Sapientia, 2009, pp. 67 e 68.)

Foto: Sri Ma Anandamayi.

A religião é “ecologicamente” indispensável ao psiquismo humano

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“Esse falso idealismo deu lugar …  ao industrialismo”

Mais um extrato de nosso mestre, desta vez do livro O Jogo das Máscaras:

A tradição fala a cada homem a linguagem que ele pode compreender, com a condição de que ele de fato a queira escutar; esta reserva é essencial, pois a tradição (…) não pode “ir à falência”; é antes da falência do homem que se deveria falar, pois foi ele que perdeu a intuição do sobrenatural e o senso do sagrado. Foi o homem que se deixou seduzir pelas descobertas e invenções de uma ciência ilegitimamente totalitária; ou seja, uma ciência que não reconhece seus próprios limites e que por este motivo ignora o que os supera. Fascinado tanto pelos fenômenos científicos quanto pelas conclusões errôneas que deles tira, o homem terminou por ser submergido por suas próprias criações; ele não está disposto a se dar conta de que uma mensagem tradicional se situa num plano totalmente diferente, nem de quão mais real é esse plano. Os homens se permitem deslumbrar-se tanto mais facilmente quanto o cientismo lhes dá todas as desculpas que eles querem para justificar seu apego ao mundo das aparências e, por consequência, também sua fuga diante de toda presença do Absoluto.

O humanismo espinozista, deísta, kantiano e franco-maçônico queria realizar um homem perfeito fora das verdades que dão ao fenômeno humano todo o seu sentido. Como era preciso substituir um Deus por outro, esse falso idealismo deu lugar ao abuso de inteligência característico do século XIX, particularmente ao cientismo e, com ele, ao industrialismo; este devendo, por sua vez, trazer consigo uma nova ideologia, também ela ao mesmo tempo achatada e explosiva, a saber, esse humanismo paradoxalmente inumano que é o marxismo. A contradição interna deste último é que ele quer construir uma humanidade perfeita destruindo o homem; ou seja, os ateus militantes, mais passionais do que realistas, querem ignorar que a religião é, por assim dizer, uma questão de ecologia. Admitindo que a religião comporta um elemento de “ópio” – não somente “para o povo” –, este elemento é “ecologicamente” indispensável para o psiquismo humano; de qualquer modo, sua ausência traz consigo abusos incomparavelmente mais graves do que o faz sua presença, pois vale mais ter bons sonhos do que ter pesadelos. Seja como for, só a religião, ou a espiritualidade, oferece esta significação integral, e esta felicidade ancorada na natureza deiforme do homem, sem as quais a vida não é nem inteligível, nem digna de ser vivida.