“Ele está em toda parte … em todos os mundos…”

O Buddha, estátua do séc. XI escavada na rocha em Gal Vihara. Polonnaruwa, Ceilão.

(…) Estas considerações nos aproximam da ideia búdica — e vedantina — da não-realidade do mundo [1]; para torná-la mais familiar, apelaremos a uma certa capacidade de imaginação e faremos a questão em sentido inverso: o que significa, então, a crença comum de que o mundo é real — absolutamente real? Como podemos chamar de “reais”, sem usar a menor nuance atenuante, fenômenos que se reduzem a quase nada, não em sua ambiência imediata, sem dúvida, mas desde que consideramos o espaço e o tempo em toda a sua extensão?

Ninguém contesta a realidade relativa de uma certa árvore, de determinada gota de espuma, de um certo sonho; mas o que representa a árvore na escala das galáxias, e o que significa sua vida efêmera, mesmo que dure séculos, em relação aos períodos geológicos, que por sua vez se reduzem a instantes? O que é a realidade de uma ínfima gota d’água em relação ao oceano e seus milênios de existência? Dir-nos-ão, sem dúvida, que todos sabem de certa forma que o tempo é relativo, mas não é essa a questão, porque há saber e saber: quem, então, “vive” concretamente a simultaneidade e a evanescência das coisas, a ponto de se superar a si mesmo e de apreender com isso o caráter quase onírico da corrente das formas?

Mas há também a ignorância no plano das coisas naturalmente simultâneas, ou seja, a incapacidade da maior parte dos homens de “ser” os outros, de viver, por assim dizer, duas vidas ao mesmo tempo, ou todas as vidas: se o homem se sente tão à vontade em seus limites, é porque sua imaginação não lhe permite ter consciência do que se passa em certos outros homens, em outros continentes, em outros mundos espirituais; de fato, a falta de imaginação é para muitos uma condição da felicidade, pois ela contribui para essa sensação fácil de segurança de que a maior parte tem necessidade para se sentir feliz, na falta de uma felicidade superior adquirida sobre os escombros de um equilíbrio anterior; dir-se-ia que o homem tem necessidade de erros para poder dormir tranquilo.

O Intelecto divino, no qual não há nenhuma imperfeição, conhece as coisas tanto em sua sucessão quanto em sua simultaneidade: ele vê tanto o desenrolar lógico das coisas quanto sua possibilidade global; conhecendo as substâncias, ele conhece ao mesmo tempo os acidentes, no nível de realidade — ou de irrealidade — que é o seu. Um tal homem, na idade média, caminha numa certa cidade e acredita viver “agora”, no que ele não se engana mais do que nós, está claro; ora, se esse homem, ao atravessar a rua, pensa profundamente em Deus, ele perde imediatamente esse aspecto de ilusão temporal e espacial que o separa de nós; a rua, em sua falsa “actualidade” [2], não mais o limita, ele saiu da instantaneidade enganosa, de sua situação corporal, espacial e psicológica; pensando em Deus, ele está ao nosso lado, e não somente isso: ele está também em toda parte, junto a todos os homens, em todos os mundos; ele está, de certa forma, em toda parte onde se pensa no Absoluto [3] e onde se pensará n’Ele, e, mantendo-se assim no centro, ele é como a testemunha de todas as coisas; a questão da inconsciência — ou da “falta de imaginação” — já não se coloca, pois é como se ele tivesse consciência de tudo, a partir do momento em que ele dirige seu espírito para o Vazio divino e se situa assim no meio do espaço e do tempo.

Mas não há somente a questão da irrealidade do cosmo; há também a de sua relativa realidade, portanto da identidade de essência — identidade misteriosa e quase inefável — entre a manifestação e o Princípio, ou entre os símbolos e seu Protótipo; em “tal” luz ou em “tal” inteligência nós reencontramos a luz ou a inteligência “enquanto tal” — portanto toda aquela “que é” — a palavra “tal” exprimindo de início a particularidade ou a acidentalidade e, depois, na expressão “enquanto tal”, a essência ou a realidade, o “em-si” divino. O que não é diferente é idêntico; o mundo — macrocosmo ou microcosmo — não é “nem divino, nem não-divino”, ou ele tem as duas qualidades ao mesmo tempo. Formulações desse gênero, de aparência simplista ou irrazoável — o que é próprio das expressões antinômicas —, exigem mais do que a simples lógica, elas envolvem o que há na inteligência de mais misterioso, conforme o que se disse: “Ele (Deus) pôs Seu olho em seus corações, para lhes mostrar a grandeza de Suas obras” (Eclesiástico, XVII, 7).

Notas

[1] O Sufismo, já se sabe, tem a mesma doutrina, como testemunha esta passagem do Gulshan i Raz de Mahmûd Shabistârî: “O mundo é uma figura imaginária, uma sombra difusa do Infinito… a imaginação produz fenômenos objetivos que não têm existência real; da mesma forma, este mundo não tem realidade substancial, mas é apenas um espetáculo de sombras ou um jogo. Tudo é penetrado pelo Ser absoluto, em sua infinita perfeição. Há muitos números, mas só se conta Um único… A casa foi deixada vazia, exceto pela Verdade, pois num instante o mundo terá desaparecido.”

[2] N. do T.: ser “em ato”, ser “de fato”.

[3] Pode se tratar de um “Absoluto” em si ainda relativo, mas esse “Absoluto relativo” — o Ser criador e salvador — é absoluto em relação ao homem enquanto tal; ele só é relativo in divinis e no Intelecto.


Extraído de Images de l’Esprit —Shinto, Bouddhisme, Yoga, de Frithjof Schuon, Le Courrier du Livre, Paris, 1982, pp. 76-79.

Foto: Detlef Hansen – Wikimedia Commons.

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