Toda sanção divina é a inversão de uma inversão

O que dissemos das sanções divinas e de sua raiz na natureza humana ou no estado de desequilíbrio desta aplica-se também, do ponto de vista das causas profundas, às calamidades deste mundo e à morte: tanto esta como aquelas se explicam pela necessidade de um choque de retorno depois de uma ruptura de equilíbrio. (…)

Toda sanção divina é a inversão de uma inversão. (…)

Não se deveria jamais perguntar por que as infelicidades se abatem sobre inocentes: em relação ao Absoluto, tudo é desequilíbrio, “só Deus é bom”; ora, essa verdade não pode não se manifestar de tempos em tempos de uma maneira direta e violenta. Se os bons sofrem, isso significa que todos os homens mereceriam o mesmo; a velhice e a morte provam isso, pois não poupam ninguém.

A repartição terrestre dos bens e dos males é uma questão de economia cósmica, ainda que a justiça imanente deva, também ela, revelar-se às vezes claramente mostrando os laços entre as causas e os efeitos na ação humana. Os sofrimentos são manifestações dos mistérios do afastamento e da separação, eles não podem não existir, o mundo não sendo Deus. (…)

Mas a justiça niveladora que é a morte nos importa infinitamente mais do que a diversidade dos destinos terrestres. A experiência da morte é mais ou menos como a de um homem que tivesse vivido toda a sua vida num quarto escuro e que se visse subitamente transposto para o cume de uma montanha; lá, ele abraçaria com o olhar toda o vasto panorama; as obras dos homens lhe pareceriam insignificantes.

É assim que a alma arrancada da terra e do corpo percebe a inesgotável diversidade das coisas e os abismos incomensuráveis dos mundos que as contêm; ela se vê pela primeira vez em seu contexto universal, num encadeamento inexorável e numa rede de relações múltiplas e insuspeitadas, e ela se dá conta de que a vida não foi senão um “instante” e um “jogo” [1].

Nota [1]: Segundo um hadîth, o homem está dormindo e, quando morre, desperta. Mas o gnóstico (‘arîf) está sempre desperto, como disse o Profeta: “Meus olhos dormiam, mas meu coração não dormia.”

Frithjof Schuon, Comprendre l’Islam, Éditions du Seuil, 1976, pp. 89-92.

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