O que é a verdadeira intelecção

Uma prova não é convincente porque ela é absoluta – pois, isto, ela não poderia ser –, mas porque ela actualiza [traz da “potência” ao “ato”] no espírito uma evidência.

Uma prova só é possível em função de um conhecimento prévio. É preciso toda a artificialidade de um pensamento destacado de seu Princípio transcendente para querer enxertar uma prova num vazio; é como se se quisesse buscar no tempo a origem da eternidade.

É injusto rejeitar uma “prova de Deus” pela simples razão de que lhe ignoramos as premissas implícitas, e evidentes para o autor da prova.

Provar o Absoluto é ou a coisa mais fácil, ou a mais difícil, conforme as condições intelectuais do meio.

*

Há, correlativamente a toda prova, um elemento que escapa ao determinismo da simples lógica, e que é quer uma intuição, quer uma graça; ora, este elemento é tudo. Na ordem intelectual, a prova lógica não é senão uma cristalização muito provisória da intuição, cuja modalidades são incalculáveis em função da complexidade do real.

*

Pode-se certamente provar toda verdade; mas nem toda prova entra em todos os espíritos. Nada é mais arbitrário do que rejeitar as provas clássicas de Deus, pois cada uma é válida em relação a uma certa necessidade de explicação. Essa necessidade de explicação cresce não em proporção do conhecimento, mas em proporção da ignorância. Para o sábio, cada estrela, cada flor prova metafisicamente o Infinito.

*

O “progresso teológico”: é explicitar o que os predecessores não tinham considerado necessário dizer, ou limitar as coisas a um certo grau de entendimento. A escolástica – no que ela tem de limitativo – não teria podido nascer sem uma compreensão defeituosa dos Padres gregos.

Há alguma coisa de análogo na heresia, que arromba ruidosamente portas abertas a fim de melhor poder dissimular seus vícios fundamentais; mas, aqui, já não se trata de uma “verdade menor”, nem de limitação dialética, mas de erro puro e simples.

*

Os espíritos racionalistas têm a obsessão dos “pensamentos”; eles veem os conceitos, não as “coisas”, de onde suas críticas falhas das doutrinas inspiradas e tradicionais. Eles não veem nem as realidades de que falam essas doutrinas, nem as coisas inexprimidas que são autoevidentes. Eles criticam como juristas aquilo que surpreende seus hábitos mentais; não podendo atingir as “coisas”, eles se põem a mastigar as palavras; é próprio dos filósofos objetivar suas limitações.

*

Uma doutrina metafísica é a encarnação mental de uma verdade universal.

Um sistema filosófico é a tentativa racional de resolver certas questões que se se coloca a si mesmo. Um conceito só é um “problema” em função de determinada ignorância.

*

Para atingir a verdade, é preciso despertar em si – se isso é possível – a faculdade intelectiva, e não se esforçar em “explicar” pela razão realidades que não se “vê”; ora, a maior parte das filosofias partem de uma espécie de cegueira axiomática, de onde suas hipóteses, seus cálculos, suas conclusões, todas coisas mais ou menos desconhecidas em metafísica pura, a dialética desta estando antes de tudo fundada na analogia e no simbolismo.

*

A filosofia não se limita a “expor” levando em conta a necessidade de explicação do intelectivo ao qual a sabedoria normalmente se dirige, mas ela quer “explicar” de uma maneira quase absoluta, ou seja, visando a uma necessidade de explicação desproporcional, artificial e “profana”, e tomando suas explicações extrínsecas por fatores essenciais da verdade; ela objetiva o que não é senão subjetivo, e ela arrasta a verdade em suas próprias escavações.

*

Viver de pensamentos é substituir indefinidamente conceitos por outros conceitos. Na raciocinação, os conceitos são usados sem jamais poderem ser substituídos, nesse plano, por qualquer coisa de melhor. Nada é mais nocivo do que esse consumo mental de uma verdade; dir-se-ia que as ideias verdadeiras se vingam daquele que se limita a pensá-las.

Aquele cujo ser está por demais exclusivamente ancorado no pensamento, que quer tudo realizar na mente e que só faz esgotar as virtualidades de conhecimento, escorrega finalmente para o erro, se ainda não está nele, como a curva ascendente de um círculo se transmuta imperceptivelmente em curva descendente. Malgrado certas flutuações que podem iludir, é esse todo o drama da filosofia.

O pensamento humano é aberto a todas as tendências e a todas as inspirações; o homem pode pensar mesmo o tédio e o nada.

*

A virtuosidade mental que brinca indefinidamente com conceitos sem poder nem querer chegar a um resultado definitivo não tem absolutamente nada a ver com o gênio especulativo, cujas fórmulas parecerão, aliás, “ingênuas” à dita virtuosidade; esta, de resto, se opõe à intuição intelectual como Lúcifer se opõe a Deus.

“O espírito sopra onde quer” (spiritus ubi vult spirat); isto não poderia significar que ele deva soprar em toda parte.

*

O homem moderno coleciona chaves sem saber abrir uma porta; cético, ele se debate entre conceitos sem suspeitar-lhes nem o valor intrínseco, nem a eficácia: ele “classifica” ideias, na superfície do pensamento, e não “realiza” nenhuma delas em profundidade. Ele se dá ao luxo do desespero, o que é realmente a forma mais paradoxal da comodidade; ele crê ter feito experiências, enquanto ele não faz senão evitar aquelas que se impõem e que ele não tem nem mesmo a possibilidade intelectual de fazer; sua experiência é a de uma criança que, tendo-se queimado, quer abolir o fogo.

*

O pensamento contemplativo é uma “visão”; ele não está em “ação” como o pensamento passional. Sua lógica externa depende de sua visão interna, enquanto que, no pensamento passional, o processo lógico é como que cego: ele não “descreve” realidades diretamente percebidas, mas “constroi” justificativas mentais em função de ideias preconcebidas que podem ser verdadeiras, mas que são mais “aceitas” que “compreendidas”.

A palavra “pensador” implica que se atribui ao conhecimento uma atividade individual, o que é significativo. Quanto ao “contemplativo”, ele pode não “pensar”: o ato de contemplação é principial, o que significa que sua atividade está em sua essência, não em suas operações.

*

O raciocínio não poderia desempenhar, no conhecimento, um papel que não o de causa ocasional da intelecção; esta intervém de uma maneira súbita – e não contínua ou progressiva –, desde que a operação mental, condicionada, por sua vez, por uma intuição intelectual, possua a qualidade que faz dela um símbolo puro. Quando o calor produzido pela fricção de dois pedaços de madeira – ou por uma lente captando um raio de sol – atingiu o grau preciso que é seu ponto culminante, a chama surge subitamente; da mesma forma, a intelecção, desde que a operação mental seja suscetível de fornecer um suporte adequado, se introduz instantaneamente nesse suporte. É assim que a inteligência humana assimila sua própria Essência universal graças a uma espécie de reciprocidade entre o pensamento e a Realidade. O racionalismo procurará, ao contrário, em seu próprio plano o ponto culminante do processo cognitivo; ele procura “resolver” a verdade metafísica, como se houvesse nela um problema a resolver, ou, ainda, ele procura a verdade na ordem das formulações mentais e rejeita a priori a possibilidade de um conhecimento acessível além dessas formulações e que escapa, por consequência – em certa medida, ao menos –, dos recursos da linguagem humana; o mesmo valeria buscar uma palavra que fosse inteiramente o que ela designa ! É dessa contradição de princípio que decorre a incapacidade, em primeiro lugar, de fornecer as formas mentais próprias a veicular a intuição intelectual e portanto a verdade – pois as questões mal formuladas não atraem a luz, assim como não derivam dela – e, depois, de perceber as dimensões intelectuais atingidas virtualmente por tal ou qual formulação, mesmo defeituosa; o racionalismo procede como o homem que tentasse desenhar o ponto geométrico esforçando-se por fazê-lo o menor possível, ou que quisesse atingir, em algum plano criado, uma perfeição absoluta, por um lado negando a imperfeição necessária desse plano e por outro a transcendência da Perfeição pura.

Ora, uma formulação doutrinal é perfeita não por esgotar no plano da lógica mental a Verdade infinita, o que é impossível, mas porque ela realiza uma forma mental suscetível de comunicar, àquele que é intelectualmente apto a recebê-lo, um raio dessa Verdade; é o que explica porque as doutrinas tradicionais serão sempre aparentemente “ingênuas”, ao menos do ponto de vista dos homens que não compreendem que a razão suficiente da sabedoria não se situa no plano de sua afirmação formal, e que não há nenhuma medida comum e nenhuma continuidade entre o pensamento – cuja evoluções, em suma, só tem um valor simbólico – e a Verdade pura, a qual se identifica ao que “é” e, por este fato, engloba aquele que pensa.


Extraído de: Frithjof Schuon, Perspectives spirituelles et faits humains, Cahiers du Sud, 1953, pp. 9-15.

4 ideias sobre “O que é a verdadeira intelecção

    1. Alberto Queiroz Autor do post

      Prezado amigo. Grato pelo comentário. Fico contente de saber que está sendo útil a diversas pessoas. É realmente um texto excepcional, que abre um livro excepcional. Saudações. (AQ)

      Resposta

Deixe uma resposta para Carlos Alberto Nacsa Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s