O mundo de hoje é a imagem da irresponsabilidade do homem moderno

“Os homens construíram ao seu redor um mundo feito de fenômenos artificiais, em cujo quadro deformante todos os seus erros e delitos têm a aparência de evidências ou de glórias; este mundo factício é de tal forma feito que o mal nele aparece como um bem, e o bem como um mal. Eles chamam de ‘realidade’ a este mundo de cenários e espelhos deformantes, e atribuem a este ídolo, ou a este bode expiatório, todas as responsabilidades, se sentem necessidade disso; e, se esta ‘realidade’ entra em colapso, apressam-se em declarar que Deus fez mal o mundo, e o mundo é o que Deus é, ou seria, ‘se Ele existisse’, e assim por diante. Quando se fala de fé e de obediência — e estas duas atitudes se esclarecem perfeitamente, para além de toda sentimentalidade, à luz da relação Substância-acidente —, os homens protestam que eles não são crianças irresponsáveis e sabem reconhecer o que é verdadeiro e o que não é; mas, quando se fala de sanções divinas, eles se apressam a dizer que não poderiam merecer nenhuma punição, porque foi Deus quem os fez o que eles são. Ora, é preciso escolher nossos argumentos: ou somos irresponsáveis e portanto fundamentalmente inocentes, mas então tiremos as consequências e sejamos crianças; ou somos soberanamente responsáveis e livres, mas então não pretendamos escapar de jure de todo ‘choque de retorno’ cuja causa deriva, precisamente, de nossa responsabilidade.”

Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, Éditions Traditionnelles, Paris, 1982, pp. 93-94, tradução de MSA.

[Fotos: Indio Hupa com arpão para pesca, por Edward Curtis; Traffic Jam at Rama 4 Road, por Sry85 colhida na Wikimedia Commons neste link.]

Todo amor é uma busca do Paraíso perdido

Radha Krishna

Fundamentalmente, todo amor é uma busca da Essência ou do Paraíso perdido; a melancolia doce ou poderosa que intervém frequentemente no erotismo poético ou musical é uma expressão dessa nostalgia de um Paraíso longínquo, e sem dúvida também da evanescência dos sonhos terrestres, cuja doçura, precisamente, é a de um Paraíso que não mais perecebemos, ou que ainda não percebemos. Os violinos ciganos evocam não somente os altos e baixos de um amor demasiadamente humano, eles cantam também, em suas melodias mais profundas e mais pungentes, a sede desse vinho celeste que é a essência da Beleza; toda música do amor reencontra, na medida de sua autenticidade e de sua nobreza, os sons ao mesmo tempo encantadores e liberadores da flauta de Krishna.

Frithjof Schuon, L’Esoterisme Comme Principe et Comme Voie, Dery-Livres, Paris, 1978, p. 134.

[Imagem: Companheira persuadindo Radha enquanto Krishna toca sua flauta. Lambagraon Gita Govinda, circa 1825.]

Na santidade, uma alma se torna plenamente si mesma

Abraham Lincoln: inteligência, capacidade, compaixão, nobreza

“Se a vida espiritual envolve a superação de nosso ego, o estado sem-ego ou de ausência de ego não leva a uma espécie de prodígio trans-individual: ao alcançar a realização espiritual, uma alma não se torna simplesmente invisível ou anônima, ou uma cópia exata de outro ser sem ego: ela se torna plenamente ela mesma de um modo que permite que seja imortalmente reconhecida no Céu e na Terra. (*) Continuar lendo

Ensaio de Schuon: “Da Cruz”

Publicamos hoje ensaio inédito em português, traduzido por Beatriz Becker. Eis um trecho dele:

O centro da cruz, ali onde as duas dimensões se cruzam, é o mistério do abandono: é o “momento espiritual” onde a alma se perde a si mesma, onde ela “não mais é” e onde ela “ainda não é”. Como toda a Paixão do Cristo, esse grito é, não apenas um mistério de dor ao qual o homem deve participar pela renúncia, mas também, ao contrário, uma “abertura” que só Deus podia operar, e que ele operou porque ele era Deus; e é por isso que “meu jugo é suave e meu fardo, leve”. A vitória que incumbe ao homem já foi levada por Jesus; ao homem não resta mais que abrir-se a essa vitória, que será a sua.

Para ir ao ensaio, clique aqui.

La Majestat de Batlló – foto por Roger Ferrer Ibáñez from Vilassar de Mar, Spain / CC BY-SA (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0)

Toda sanção divina é a inversão de uma inversão

O que dissemos das sanções divinas e de sua raiz na natureza humana ou no estado de desequilíbrio desta aplica-se também, do ponto de vista das causas profundas, às calamidades deste mundo e à morte: tanto esta como aquelas se explicam pela necessidade de um choque de retorno depois de uma ruptura de equilíbrio. (…)

Toda sanção divina é a inversão de uma inversão. (…)

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"Dedica tua mente a Brahman… a morte não te destruirá."

Srî Ramana Maharshi (1879-1950)

O santo Vasishta disse:

“Uma vez pedi ao santo sábio Bhushunda que nos dissesse como foi capaz de escapar das mãos da Morte, quando todos os outros seres no mundo estão fadados a serem esmagados por suas mandíbulas que tudo devoram.

Bhushunda disse:

‘Senhor, tu que sabes todas as coisas vem então perguntar a mim o que sabes tão bem? Tal ordem do Mestre encoraja seu servo a falar quando este, caso contrário, teria refreado sua língua.

‘A morte não destruirá aquele que não adorna seu corpo com as joias de seus viciosos desejos, como um bandido não mata um viajante que não tem uma preciosa corrente de ouro em volta de seu pescoço.

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Verdade e fé

A verdade é estática, enquanto a fé é dinâmica (…)

O equilíbrio entre a verdade e a fé é análogo àquele entre a doutrina e o método, ou entre a mente e a alma; a mente bem disposta admite abstratamente a verdade, mas falta muito para que a alma a admita concretamente na mesma proporção ou segundo o mesmo ritmo; é à alma, bem mais que à mente, que se dirigem estas palavras: “Bem-aventurados aqueles que não viram, mas mesmo assim acreditaram.”

A fé é, antes mesmo de seus conteúdos particulares, nossa disposição para crer divinamente possível o que humanamente não o é.


Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, Les Éditions Traditionnelles, 1970, cap. 7. Tradução de Mateus Soares de Azevedo.

Foto: Sacerdotes balineses com rosários e sinos de oração em cerimônia religiosa. Imagem de domínio público colhida na Wikimedia Commons. Para acessar o arquivo original, clique aqui.

Criticar os outros exige sempre a humildade e a caridade

“A facilidade de criticar os outros pressupõe no homem uma certa cegueira em relação ao seu próprio estado, mas ao mesmo tempo ela também provoca essa cegueira, pelo efeito da reação concordante inevitável.

“Quem é obrigado a criticar pela força das coisas, ou seja, em função da verdade, deve se mostrar tanto mais humilde e caridoso, e capaz de penetrar o bem secreto das criaturas.”

Frithjof Schuon, Perspectives spirituelles et faits humains, Édition Maisonneuve & Larose, Paris, 1989, p. 260.


Neste texto de Schuon, é importante notar o importante ensinamento de que a crítica fácil também provoca a cegueira quanto a si mesmo— ou seja, é consequência, mas também causa, num círculo vicioso.

50 mil acessos e uma nota já publicada

FS

Este website fez seis anos e completou agora 50 mil acessos, com mais de cem notas (posts) publicadas, três livros online, uma entrevista, vários ensaios e outros recursos.

Em 2019 produzimos menos e tivemos também um número menor de acessos, mais de 7 mil, contra mais de 11 mil em 2018. Mesmo assim, estamos satisfeitos com o que pôde ser feito e agradecemos a Deus por ter-nos permitido continuar com este trabalho.

O que importa — ensinam-nos Schuon, Guénon, Burckhardt e todos os grandes mestres — não é a quantidade, mas a qualidade. Se uma palavra de uma só nota desta publicação tiver ajudado concretamente uma pessoa a aproximar-se mais de Deus e a renovar sua compreensão e sua fé, já estaremos muito felizes.

Mas sabemos que mais de uma pessoa encontrou aqui algo que a ajudou, em algum momento, em alguma medida, em seu esforço espiritual. A Deus o louvor — e continuemos o trabalho.

Falando em esforço, ocorre-nos repetir aqui um excerto dos escritos de Schuon que já foi objeto de uma nota anterior:

“Na realidade, o que separa o homem da Realidade divina é uma barreira mínima: Deus está infinitamente próximo do homem, mas este está infinitamente longe de Deus. Esta barreira, para o homem, é uma montanha; o homem se põe diante de uma montanha que ele deve desfazer com suas próprias mãos. Ele cava a terra, mas em vão, a montanha continua ali; o homem, entretanto, continua a cavar, em nome de Deus. E a montanha se desvanece. Ela jamais existiu.”

(Frithjof Schuon, Les Perles du Pèlerin)

 


Foto: Frithjof Schuon num bosque perto de sua casa em Bloomington, Indiana (EUA).